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Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Quase nova

A recuperação da cirurgia ta me deixando doida. Eu havia planejado um procedimento pouco invasivo, sem dor ou desconforto e um breve retorno às atividades do cafofo.
Não saiu como o esperado.
Demorei muito pra operar e a hérninha virou uma jibóia com rota de fuga para a coxa. O corte convencional foi a solução encontrada.
Lá no hospital ouvi o médico recomendar à enfermagem morfina caso eu sentisse dor. Pensei: a noite vai ser longa... Por dois motivos: primeiro que morfina não é prescrita pra dorzinha leve e, portanto, o inferno me aguardava. Segundo, porque morfina é uma droga comumente traficada entre a equipe. Eles registram no prontuário que ministraram ao paciente, mas estão usando ou traficando.
Eu não vi nem a cor do vidrinho de morfina!
Quando reclamei de dor ao meu médico eu usei uma expressão como “a morfina não veio, eles regulam” e meu médico não disse uma só palavra. Quem cala...

Liberada pra alta. Muito edema, muita dor, muito dreno, várias idas ao consultório para curativos, que me deixam com mais dor.
Mãos de cirurgião são pesadas.
Estão acostumados a lidar com a carne alheia anestesiada e adormecida. Não entendem quando a paciente chora de dor só porque foi toda picotada e ensanguentada com uma tesoura durante a remoção de pontos “é porque você é sensível”. Não entendem o surgimento de lesões quando a pele é arrancada junto com o micropore “você tem uma tendência a alergia”.

Lembro agora uma passagem do livro Memória de minha putas tristes, onde o narrador fala do “diabinho que sopra no ouvido respostas devastadoras que não temos na hora certa”.

Meu caro doutor, eu tenho tendência à normalidade, eu sinto dor, o corpo reage de acordo. Eu não vivo na Idade Média. Existem anestésicos para procedimentos dolorosos e devem ser usados. Existem técnicas e instrumentos que servem para proceder com eficiência e proporcionar conforto ao paciente ao mesmo tempo. Eu estou viva e sinto.
E eu reconheço um perverso com necessidade de humilhar e maltratar o outro.
(Mas eu só diria isso depois de certificar-me que ele abandonou a tesoura)
  
Pensando o mesmo que eu, Dr. Varella publicou o artigo Procedimentos Medievais, vale a pena ler antes de sua próxima consulta.

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Fada
Acredito que como tudo na vida, nao seria adequado generalizar. Eu me preocupo muito com pos-operatorio de meus pacientes e troco os curativos pessoalmente para evitar exatamente esses problemas que uma enfermeira sobrecarregada pode trazer ao paciente.
Meu pai ja teve que passar por 3 biopsias prostaticas e eu, apos ver seu sofrimento na primeira delas, passei a seda-lo pessoalmente nas demais, e o procedimento transcorre MUITO mais tranquilo.
A satisfacao do paciente vale mais que uma tecnica cirurgica perfeita. Haja vista o seu post.
Sempre por perto.
Luiz
PS Feliz Natal

Fada Safada disse...

Caro Luiz.

Lamento profundamente saber que teu pai precisou passar por este procedimento tão doloroso e, se não fosse por tua intervenção, sofreria outras vezes mais nas mãos dos colegas "Mengele".
Bom saber que ele pode contar com a delicadeza e a consideração do amado filho para amenizar seu sofrimento.

Feliz Natal pra ti e tua família.